Falha do Estado em Garantir Tratamento de Saúde Pode Gerar Indenização, Decide STJ
Direito à saúde não pode ser frustrado pela omissão do poder público
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reafirmou recentemente um importante entendimento em matéria de direito à saúde: quando o Estado deixa de cumprir sua obrigação de fornecer tratamento médico adequado, a obrigação de fazer pode ser convertida em indenização por perdas e danos, sem que isso configure julgamento fora dos limites do pedido formulado pela parte.
A decisão foi proferida pela Segunda Turma da Corte e representa mais um passo na consolidação da jurisprudência voltada à efetivação dos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal.
O caso analisado pelo STJ
A ação foi ajuizada por uma mãe que buscava a proteção do filho, diagnosticado com transtorno bipolar, transtorno de personalidade borderline e dependência química.
Diante da gravidade do quadro clínico, a família requereu judicialmente a internação compulsória do paciente em unidade especializada. Entretanto, segundo os autos, não havia vagas adequadas disponíveis no estado de residência da família.
Sem alternativa e diante da urgência da situação, os familiares providenciaram a internação involuntária do paciente em uma clínica especializada localizada em São Paulo.
Embora tenha sido proferida decisão judicial determinando que o Estado custeasse o tratamento, a ordem não foi efetivamente cumprida.
Após aproximadamente oito meses de internação, os familiares já não possuíam condições financeiras para arcar com as despesas, o que levou à interrupção do tratamento.
Diante da inércia estatal, a autora requereu a conversão da obrigação de fazer em indenização correspondente aos valores desembolsados pela família para custear o tratamento.
As instâncias ordinárias acolheram o pedido e condenaram o Estado ao pagamento de R$ 23.143,86 a título de perdas e danos.
O argumento do Estado
Ao recorrer ao STJ, o ente público sustentou que teria ocorrido perda superveniente do interesse de agir, alegando que a família optou por internar o paciente em clínica particular fora do estado.
Também argumentou que a condenação ao pagamento de indenização configuraria decisão extra petita, ou seja, uma decisão que teria concedido providência diversa daquela originalmente solicitada na ação.
O entendimento da Segunda Turma
A relatora do caso, ministra Maria Thereza de Assis Moura, rejeitou os argumentos apresentados.
A magistrada destacou que os artigos 141 e 492 do Código de Processo Civil realmente impõem ao julgador o dever de decidir dentro dos limites estabelecidos pelas partes.
Contudo, ressaltou que a jurisprudência consolidada do STJ reconhece que o juiz não está preso à literalidade do pedido formulado.
O que deve ser preservado é a finalidade da demanda e a causa de pedir apresentada pela parte.
No caso concreto, desde o início do processo a autora buscava assegurar ao filho acesso ao tratamento médico adequado.
A conversão da obrigação de fazer em indenização não alterou esse objetivo.
Apenas representou uma forma alternativa de garantir a efetividade do direito diante da impossibilidade prática de cumprimento da prestação originalmente determinada.
A importância dos artigos 497, 499 e 536 do CPC
A decisão também encontra respaldo em dispositivos importantes do Código de Processo Civil.
O artigo 497 prevê que o juiz deve buscar a tutela específica da obrigação sempre que possível.
Já o artigo 499 admite a conversão da obrigação em perdas e danos quando a tutela específica não puder ser obtida.
Por sua vez, o artigo 536 confere ao magistrado poderes para adotar medidas necessárias ao cumprimento da decisão judicial.
Com base nesses dispositivos, o STJ concluiu que não houve qualquer julgamento extra petita.
O que ocorreu foi uma adaptação legítima dos meios executivos para assegurar a efetividade do direito reconhecido judicialmente.
O direito fundamental à saúde
A Constituição Federal de 1988 estabelece no artigo 196 que:
“A saúde é direito de todos e dever do Estado.”
Trata-se de um dos mais importantes direitos sociais previstos pela ordem constitucional brasileira.
Não basta ao Estado reconhecer formalmente esse direito.
É necessário garantir sua concretização prática.
Quando a Administração Pública deixa de fornecer tratamento indispensável, medicamentos ou internações necessárias à preservação da vida e da dignidade humana, o Poder Judiciário pode intervir para assegurar a efetividade da proteção constitucional.
A efetividade acima do formalismo
A decisão da Segunda Turma demonstra uma preocupação crescente do Judiciário com a efetividade dos direitos fundamentais.
O processo não existe para criar obstáculos ao cidadão.
Sua finalidade é entregar uma solução concreta ao problema submetido à apreciação judicial.
Nesse contexto, quando a prestação originalmente determinada se torna impossível ou ineficaz, a conversão em perdas e danos surge como instrumento legítimo para evitar que a omissão estatal permaneça sem consequências.
Conclusão
O julgamento reforça um princípio essencial do Estado Democrático de Direito: o cidadão não pode ser prejudicado pela falha do poder público em cumprir suas obrigações constitucionais.
Quando o Estado deixa de fornecer tratamento médico indispensável e a família assume sozinha os custos para preservar a saúde de um ente querido, a responsabilização estatal torna-se medida necessária para restaurar, ainda que parcialmente, o direito violado.
Mais do que uma discussão processual, a decisão do STJ reafirma que a proteção da vida, da saúde e da dignidade da pessoa humana deve prevalecer sobre formalismos excessivos, garantindo que a Justiça cumpra sua verdadeira função: tornar os direitos fundamentais uma realidade concreta.
