11 Temas da Litigância Contra o Poder Público

11 Temas da Litigância Contra o Poder Público: Pesquisa da USP Revela Onde Estão 90% das Ações Judiciais no Brasil

Palavra-chave: Litigância contra o poder público

Introdução

A litigância contra o poder público é um dos maiores desafios enfrentados pelo sistema de Justiça brasileiro. Um estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Supremo Tribunal Federal (STF), o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), revelou que apenas 11 temas concentram aproximadamente 90% de todas as ações judiciais movidas contra a administração pública.

O levantamento oferece um panorama detalhado da litigância contra o poder público, identificando as áreas que mais geram conflitos judiciais, os índices de procedência das demandas, as diferenças regionais e possíveis soluções para reduzir o elevado número de processos.

Neste artigo, analisamos os principais resultados da pesquisa e suas consequências para a administração pública, o Poder Judiciário e os cidadãos.


O que é a litigância contra o poder público?

A litigância contra o poder público corresponde ao conjunto de processos judiciais em que figuram como parte a União, os estados, os municípios, autarquias, fundações públicas ou demais entidades integrantes da Administração Pública.

Essas ações abrangem desde demandas previdenciárias até ações envolvendo servidores públicos, saúde, educação, tributos, responsabilidade civil e contratos administrativos.

Segundo o estudo, até março de 2025 existiam aproximadamente 10,6 milhões de processos pendentes relacionados aos 11 principais temas da litigância contra o poder público.


Os 11 temas que concentram a litigância contra o poder público

A pesquisa identificou que a litigância contra o poder público está fortemente concentrada em poucos assuntos.

Os principais são:

  • Previdência Social;
  • Servidores públicos;
  • Tributação;
  • Relações trabalhistas;
  • Contratos administrativos;
  • Responsabilidade civil do Estado;
  • Saúde;
  • Educação;
  • Trânsito;
  • Meio ambiente;
  • Desapropriações.

Esses onze grupos representam aproximadamente 90% de todas as demandas judiciais contra a administração pública brasileira.


A Previdência lidera a litigância contra o poder público

O maior destaque da pesquisa está nas ações previdenciárias.

Elas representam 45,1% de toda a litigância contra o poder público, evidenciando o enorme impacto das decisões administrativas do INSS e das divergências existentes na concessão de benefícios previdenciários.

Logo em seguida aparecem:

  • Servidores públicos — 21,8%;
  • Tributação — 11,5%.

Somadas, essas três categorias representam quase 80% de todo o contencioso envolvendo o Estado.


Diferenças entre União, estados e municípios

A pesquisa demonstra que a litigância contra o poder público varia conforme o ente federativo demandado.

União

Na esfera federal predominam:

  • ações previdenciárias;
  • demandas tributárias;
  • questões envolvendo autarquias federais.

Estados

Nos estados são mais frequentes:

  • ações de servidores públicos;
  • saúde;
  • trânsito.

Municípios

Já os municípios concentram:

  • ações trabalhistas;
  • responsabilidade civil;
  • contratos administrativos;
  • saúde;
  • demandas de servidores municipais.

Essa diversidade demonstra que a litigância contra o poder público possui características próprias em cada nível da Federação.


Diferenças regionais

Outro aspecto relevante observado pelos pesquisadores refere-se às diferenças regionais.

As ações previdenciárias possuem maior concentração proporcional:

  • no TRF da 5ª Região;
  • no TRF da 1ª Região.

Essas regiões abrangem grande parte dos estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde existe maior volume de demandas relacionadas aos benefícios previdenciários.

Isso reforça que a litigância contra o poder público sofre influência direta das características socioeconômicas de cada região brasileira.


Como terminam essas ações?

Além do volume processual, o estudo analisou os resultados obtidos pelos autores.

Os maiores índices de procedência foram observados em ações relacionadas à saúde.

Os dados mostram que:

  • 74% das ações de saúde são totalmente procedentes no primeiro grau;
  • 55% das ações de educação também têm procedência integral.

Já nas ações previdenciárias o cenário é diferente.

Embora sejam as mais numerosas, quase metade dos pedidos acaba sendo julgada improcedente na primeira instância.

Segundo os pesquisadores, isso revela perfis distintos da litigância contra o poder público, variando conforme o direito discutido.


Como o Brasil se compara a outros países?

A pesquisa também realizou uma interessante comparação internacional.

Em 2022 o Brasil registrava aproximadamente:

35,6 processos contra o poder público para cada mil habitantes.

Para efeito de comparação:

  • Alemanha: 8 processos por mil habitantes;
  • Argentina: 5,8;
  • União Europeia (média): 5,2;
  • França: 3,4;
  • Estados Unidos (Justiça Federal): apenas 0,1.

Os pesquisadores alertam que as comparações exigem cautela devido às diferenças entre os sistemas jurídicos.

Mesmo assim, os números demonstram que a litigância contra o poder público brasileira é significativamente superior à observada em diversos países.


As propostas para reduzir a litigância contra o poder público

O relatório destaca que não existe solução única.

Cada tema exige políticas públicas específicas.

Entre as principais recomendações estão:

  • fortalecimento da esfera administrativa;
  • melhoria da qualidade das decisões administrativas;
  • ampliação da conciliação;
  • incentivo à mediação;
  • integração dos bancos de dados públicos;
  • uso de inteligência artificial para identificar demandas repetitivas;
  • especialização temática dos órgãos públicos;
  • fortalecimento das ações coletivas;
  • uniformização da jurisprudência;
  • maior coordenação entre órgãos públicos.

Segundo o estudo, essas medidas podem reduzir significativamente a litigância contra o poder público, aumentando a eficiência do Estado e diminuindo os custos judiciais.


O papel da inteligência artificial

Entre as propostas mais inovadoras está a utilização da Inteligência Artificial.

O estudo sugere que sistemas inteligentes possam identificar padrões de demandas repetitivas, antecipar conflitos e auxiliar na formulação de políticas públicas preventivas.

A aplicação dessas tecnologias pode reduzir o ingresso de novas ações e tornar mais eficiente a gestão da litigância contra o poder público.


Conclusão

A pesquisa da USP representa um dos diagnósticos mais completos já produzidos sobre a litigância contra o poder público no Brasil.

Ao revelar que apenas 11 temas concentram cerca de 90% das ações judiciais contra a administração pública, o estudo fornece informações valiosas para gestores públicos, magistrados, advogados e formuladores de políticas públicas.

O fortalecimento da atuação administrativa, a utilização de métodos consensuais, a padronização da jurisprudência e o uso da inteligência artificial despontam como importantes caminhos para reduzir a elevada judicialização.

Mais do que diminuir o número de processos, compreender a litigância contra o poder público significa buscar um Estado mais eficiente, decisões administrativas de melhor qualidade e uma prestação jurisdicional mais célere e efetiva para toda a sociedade.