Geopolítica · Conflito Internacional · Fevereiro de 2026

Operação Épica Fúria: quando a guerra não saiu como planejado

EUA e Israel lançaram uma ofensiva devastadora contra o programa nuclear iraniano. O Irã não colapsou. Entenda por que — e o que isso muda para o mundo e para o Brasil.

Análise baseada em relato audiovisual · Publicado em 1.º de junho de 2026 · Leitura: ~5 min

A lógica era simples, ao menos no papel: bombardeios cirúrgicos, destruição das instalações nucleares, eliminação do líder supremo Ali Khamenei e, em seguida, o colapso do regime dos aiatolás. O Ocidente havia apostado que, decapitado e humilhado, o Irã se renderia à nova ordem geopolítica. O que aconteceu, no entanto, surpreendeu até os analistas mais céticos.

A Operação Épica Fúria, lançada em fevereiro de 2026 pelos Estados Unidos em conjunto com Israel, foi, em termos de poder de fogo, uma das ofensivas mais intensas da história recente do Oriente Médio. Bombas penetrantes atingiram instalações subterrâneas em Natanz e Fordow. Khamenei foi morto. Postos de comando foram destruídos. E ainda assim, a República Islâmica permaneceu de pé. Não apenas sobreviveu: reorganizou-se, contra-atacou e transformou a crise em um trunfo estratégico.

“O Irã não colapsou porque não estava sozinho — e isso mudou o cálculo de toda a guerra.”

A explicação para essa resiliência improvável reside em um acordo selado às vésperas do conflito: um pacto estratégico trilateral entre Irã, Rússia e China. Não se tratava de uma aliança ideológica nem de uma declaração de amor entre regimes autoritários. Era, em sua essência, um contrato de interesses mútuos — frio, calculado e extremamente eficaz.

O papel da Rússia: escudo e olhos no céu

Moscou entrou no acordo como consultora militar. Sua contribuição foi decisiva em dois planos. O primeiro foi tecnológico: sistemas de defesa antiaérea S-400, caças polivalentes Su-35 e, sobretudo, imagens de satélite em tempo real foram fornecidos ao exército iraniano. Com esses recursos, Teerã passou a monitorar os movimentos das forças americanas e israelenses com uma precisão que antes era impensável para um país submetido a décadas de sanções.

O segundo plano foi estratégico. Com os EUA concentrando atenção e recursos no Oriente Médio, a pressão sobre a guerra na Ucrânia diminuiu sensivelmente. Para Moscou, o conflito iraniano funcionou como um alívio geopolítico de primeira grandeza. A janela de oportunidade para avançar na Europa Oriental se abriu — e a Rússia não hesitou em aproveitá-la.

Há ainda um fator econômico que não pode ser ignorado. O barril de petróleo, com o conflito em curso, disparou para mais de 115 dólares. Para uma economia que depende estruturalmente das exportações de energia, cada dólar a mais representa dezenas de bilhões em receitas adicionais. A guerra, do ponto de vista russo, era um negócio altamente rentável.

O papel da China: tecnologia, yuan e a rota da seda

Pequim atuou como o braço industrial e tecnológico da aliança. A integração do sistema de posicionamento BeiDou 3 aos mísseis iranianos conferiu às forças de Teerã uma precisão cirúrgica que independe completamente dos satélites GPS americanos. Além disso, a China forneceu mísseis antinavio supersônicos — armas capazes de ameaçar as frotas ocidentais no Golfo Pérsico e no Mar Arábico.

Mas talvez o movimento mais disruptivo tenha sido financeiro. Enquanto os EUA apostavam no estrangulamento econômico por meio de sanções, a China trabalhou para criar um sistema de compensação financeira capaz de contorná-las. O petroyuan — a comercialização de petróleo em yuan, e não em dólares — avançou de forma acelerada no contexto do conflito, enfraquecendo um dos pilares da hegemonia americana: o monopólio do dólar nas transações de energia.

Para Pequim, o conflito também gerou um dividend estratégico inesperado: com o Pentágono sobrecarregado no Oriente Médio, a pressão americana sobre Taiwan diminuiu. A janela de manobra para a China aumentou consideravelmente — e isso, aos olhos de Zhongnanhai, valia muito mais do que qualquer compensação financeira.

O pedágio no Estreito de Ormuz

Em vez de fechar o Estreito de Ormuz — o que bloquearia também o trânsito dos próprios aliados e geraria uma crise energética global generalizada —, o Irã adotou uma solução mais sofisticada: um sistema de pedágios marítimos. Navios de países aliados ou neutros transitam livremente. Embarcações de nações consideradas hostis pagam taxas que podem chegar a 2 milhões de dólares por passagem.

Ponto de atenção

O sistema de pedágios no Estreito de Ormuz representa uma inovação na forma como potências regionais monetizam o controle de vias estratégicas — sem bloquear o comércio global, mas transformando-o em fonte de receita e instrumento de pressão diplomática.

Trata-se de uma estratégia que combina pressão econômica com pragmatismo político: mantém o fluxo de energia suficiente para não provocar uma coalizão global contra o Irã, mas onera financeiramente os adversários de maneira direta e contínua.

O que o Brasil tem a ver com tudo isso

Para o brasileiro médio, a pergunta inevitável é: o que esse conflito distante tem a ver com o meu dia a dia? A resposta é mais direta do que se imagina.

O primeiro impacto é nos combustíveis. Com o barril de petróleo acima de 115 dólares, a pressão sobre os preços da gasolina e do diesel no mercado interno é imediata. Ainda que o Brasil seja um exportador líquido de petróleo, a Petrobras pratica uma política de preços que acompanha — em alguma medida — as cotações internacionais. O diesel mais caro encarece o frete. O frete mais caro eleva o preço dos alimentos. É uma cadeia inflacionária que começa no Golfo Pérsico e termina na feira do bairro.

O segundo impacto é mais difuso, mas igualmente relevante: a reconfiguração do sistema financeiro internacional. A criação de mecanismos de comércio que contornam o dólar — sejam em yuan, em rial iraniano ou em outras moedas — coloca em questão a arquitetura monetária global que vigora desde Bretton Woods. O Brasil, inserido nesse sistema como economia emergente, precisará navegar com cuidado entre os blocos que se formam.

Por fim, há a questão da estabilidade geopolítica mais ampla. Um mundo em que EUA, Rússia e China se enfrentam — ainda que por proxies e por instrumentos econômicos — é um mundo menos previsível para países como o Brasil, que dependem do comércio internacional e de regras multilaterais para crescer.

A Operação Épica Fúria pode ter sido lançada a milhares de quilômetros de Brasília. Mas suas ondas de choque chegam — e continuarão chegando — bem perto de todos nós.

Fontes:

1. SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute)

2. Chatham House (The Royal Institute of International Affairs)

3. Crisis Group (International Crisis Group)