Jardim Catarina, São Gonçalo e o Preço dos Erros que o Estado Não Pode Cometer

O erro policial ocorrido em São Gonçalo reacendeu o debate sobre sobrecarga de trabalho, saúde mental e condições de atuação dos agentes de segurança pública.

O caso que resultou na morte dos pedreiros Marcelo da Cruz Silva, de 41 anos, e Edivan Felipe de Assis, de 46 anos, no Jardim Catarina, em São Gonçalo, é mais uma tragédia que exige reflexão séria e responsável por parte de toda a sociedade.

A Deputada Talíria do PSOL/RJ utilizou de seu tempo para dispor sobre outros erros policiais, confira:

Segundo as informações divulgadas pela imprensa, policiais militares envolvidos na ocorrência admitiram ter confundido uma ferramenta de trabalho — um tripé utilizado na construção civil — com um fuzil. O erro policial resultou na morte de dois trabalhadores que saíam de casa para mais um dia de serviço.

Independentemente das conclusões definitivas das investigações, que devem ocorrer com absoluto rigor, transparência e respeito ao devido processo legal, o episódio evidencia um problema que vai muito além de um erro policial individual. Trata-se de uma discussão sobre segurança pública, treinamento, condições de trabalho dos agentes de segurança e a própria capacidade do Estado de proteger simultaneamente cidadãos e policiais.

No dia da ocorrência, passei pela Rodovia Niterói-Manilha e pude perceber um cenário de enorme tensão. Pneus queimados às margens da via, trânsito lento, motoristas visivelmente desnorteados e preocupados com a situação. O policiamento era ostensivo e intenso, com forte presença tanto da Polícia Rodoviária Federal quanto da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. O clima era de indignação, insegurança e revolta.

Quando uma tragédia dessa natureza acontece, todos perdem.

Perdem as famílias das vítimas, que jamais terão de volta seus entes queridos.

Perde a comunidade, que vê crescer a desconfiança em relação às instituições.

Perdem os próprios policiais, que passam a carregar o peso de uma ocorrência fatal após um erro policial.

E perde o Estado, que falha em sua missão primordial de garantir segurança e justiça.

Nesse contexto, é impossível ignorar outro debate que atualmente ocupa espaço no Congresso Nacional: a discussão sobre a redução da jornada de trabalho e o possível fim da escala 6×1.

Embora a pauta esteja sendo debatida principalmente sob a ótica dos trabalhadores da iniciativa privada, talvez seja o momento de ampliar essa reflexão para as forças de segurança pública.

Policiais trabalham frequentemente sob enorme pressão psicológica, jornadas extensas, déficit de efetivo, exposição permanente ao risco e elevados níveis de estresse operacional. É legítimo discutir melhores condições de trabalho, escalas mais humanas, valorização profissional e remuneração compatível com a responsabilidade que carregam diariamente.

Isso não significa relativizar erros nem afastar responsabilidades quando elas existirem. Significa reconhecer que a segurança pública também depende de profissionais física e emocionalmente preparados para tomar decisões corretas em frações de segundo.

Da mesma forma, é necessário enfrentar com seriedade outro problema estrutural: a circulação de armamentos de guerra nas mãos de organizações criminosas.

Enquanto fuzis, munições de uso restrito e armamentos de alto poder destrutivo continuarem chegando às facções criminosas, a tendência será a manutenção de um ambiente operacional extremamente hostil para policiais e para a população. O combate ao tráfico internacional de armas, ao contrabando e às organizações criminosas precisa ser tratado como prioridade nacional.

A morte de Marcelo e Edivan não deve servir apenas para alimentar disputas ideológicas ou narrativas políticas. Deve servir como alerta.

O Brasil precisa de uma segurança pública que proteja a população sem produzir tragédias. Precisa de investigações rigorosas quando erros ocorrerem. Precisa de policiais valorizados, treinados e adequadamente equipados. E precisa impedir que armas de guerra continuem chegando às mãos erradas.

Porque quando trabalhadores morrem a caminho do serviço, quando comunidades entram em convulsão social e quando agentes públicos se veem envolvidos em episódios dessa gravidade, fica evidente que o problema não é de um lado ou de outro.

O problema é de todos nós.