10 Perguntas para Entender os Eventos Climáticos Extremos e o Papel do Ser Humano na Natureza
Palavra-chave: eventos climáticos extremos
Introdução
Ondas de calor, secas prolongadas, chuvas torrenciais, enchentes, incêndios florestais e tempestades cada vez mais destrutivas têm ocupado espaço crescente no noticiário mundial. Diante dessa sequência de acontecimentos, surge uma pergunta que merece ser feita com cuidado: até que ponto esses fenômenos são naturais e até que ponto a intervenção humana está contribuindo para torná-los mais frequentes ou intensos?
A resposta não é simplesmente “tudo é culpa do homem”, mas também não encontra respaldo científico na ideia de que a atividade humana não tenha relação alguma com as transformações observadas no clima.
O desafio é separar fenômenos diferentes, compreender suas causas e evitar conclusões precipitadas. É justamente nesse exercício de análise que os eventos climáticos extremos se tornam uma oportunidade para desenvolver pensamento crítico sobre a relação entre sociedade, economia, tecnologia e natureza.
Há ainda uma correção importante em relação às informações que circulam sobre o fenômeno El Niño. Em julho de 2026, a NOAA informou que o El Niño estava presente e deveria se fortalecer até o fim do ano, com possibilidade de um episódio muito forte entre outubro e dezembro. Portanto, é mais adequado falar em El Niño de 2026, e não atribuir automaticamente todos os eventos de 2025 a um “Super El Niño”.
1. A natureza sempre produziu eventos extremos?

Sim.
Terremotos, furacões, secas, enchentes, ondas de calor, erupções vulcânicas e outros fenômenos fazem parte da dinâmica natural do planeta.
A Terra nunca apresentou um clima perfeitamente estável. Oceanos, atmosfera, circulação dos ventos, atividade solar, vulcanismo e movimentos tectônicos participam de sistemas extremamente complexos.
Por isso, observar um evento extremo isoladamente não permite concluir que ele foi causado pela mudança climática.
O raciocínio científico precisa considerar tendências de longo prazo, frequência, intensidade, localização e comparação com registros históricos.
É exatamente nesse ponto que a discussão sobre eventos climáticos extremos precisa fugir dos dois extremos do debate: o negacionismo absoluto e o alarmismo sem evidências.
2. O que mudou no clima global?

Embora o clima sempre tenha variado, existe hoje uma evidência robusta de aquecimento global provocado principalmente pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa decorrentes das atividades humanas.
O relatório da Organização Meteorológica Mundial sobre 2025 confirmou que 2015 a 2025 foram os 11 anos mais quentes já registrados, e que 2025 ficou entre o segundo e o terceiro ano mais quente da série, com aproximadamente 1,43°C acima da média de 1850–1900. O mesmo relatório destaca o aumento do desequilíbrio energético da Terra e a continuidade do aquecimento dos oceanos.
Isso não significa que todo episódio específico tenha uma única causa.
Significa que estamos alterando as condições de fundo nas quais os fenômenos meteorológicos acontecem.
E essa diferença é fundamental.
3. Como o aquecimento global pode influenciar extremos?

Uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor d’água. Isso pode contribuir para chuvas mais intensas em determinadas situações.
Ao mesmo tempo, temperaturas elevadas aumentam a evaporação e podem agravar o estresse hídrico quando as chuvas são insuficientes.
É possível, portanto, que o mesmo planeta experimente simultaneamente regiões enfrentando secas severas e outras sofrendo chuvas extraordinárias.

No Brasil, o relatório do Cemaden sobre 2025 encontrou justamente essa combinação. O país registrou sete ondas de calor, chuvas intensas em diferentes regiões e períodos prolongados de seca. Até 503 municípios chegaram a apresentar condições de seca severa ou extrema durante o ano.
Esse conjunto de dados ajuda a compreender por que os eventos climáticos extremos não devem ser analisados apenas como episódios isolados.
4. E o El Niño? Ele é causado pelo ser humano?

Aqui é necessário fazer uma distinção.
O El Niño é um fenômeno natural associado ao sistema El Niño–Oscilação Sul (ENSO), caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial e por alterações na circulação atmosférica.
Ele ocorre naturalmente e pode modificar os padrões de temperatura e precipitação em diversas regiões do planeta.
Em 2026, entretanto, a NOAA registrou o desenvolvimento do El Niño e projetou seu fortalecimento ao longo do ano. Em julho, havia 97% de probabilidade de persistência até o início da primavera de 2027 e 81% de chance de um evento muito forte entre outubro e dezembro.
Portanto, seria incorreto dizer que o ser humano “criou” o El Niño.
A questão mais interessante é outra: como um fenômeno natural interage com um planeta que já está mais quente?
Essa é uma pergunta muito mais sofisticada do que simplesmente atribuir todos os desastres ao El Niño.
5. O Brasil oferece um exemplo importante

Os dados brasileiros ajudam a compreender a complexidade do problema.
Em 2025, Quaraí, no Rio Grande do Sul, chegou a 43,8°C. O Rio de Janeiro registrou máximas entre 42°C e 44°C, enquanto São Paulo atingiu 37,2°C em dezembro, maior valor para o mês em 64 anos.
Também ocorreram episódios de chuva excepcional.
Teresópolis, no Rio de Janeiro, acumulou 689,4 milímetros de chuva em abril, volume equivalente a 548% da média histórica do mês. São Paulo registrou 125,4 milímetros em apenas um dia em janeiro.
Ao mesmo tempo, o Sistema Cantareira encerrou 2025 com apenas 20,2% do volume útil armazenado, o pior nível desde a crise hídrica de 2014/2015. O próprio Cemaden apontou que, além da irregularidade das chuvas, retiradas de água acima da média histórica contribuíram para agravar o problema.
Aqui aparece uma questão que vai além do clima: qual é a responsabilidade humana na vulnerabilidade diante desses fenômenos?
6. O desastre é apenas natural?

Não necessariamente.
Uma chuva intensa é um fenômeno meteorológico.
Mas uma chuva intensa que provoca milhares de desabrigados pode revelar problemas relacionados à ocupação urbana, infraestrutura, drenagem, desmatamento, planejamento territorial, pobreza e ausência de políticas preventivas.
Essa distinção é essencial.
O fenômeno natural pode ser inevitável. O tamanho da tragédia, muitas vezes, não é.
Quando construímos cidades em áreas de risco, ocupamos margens de rios, impermeabilizamos excessivamente o solo ou destruímos vegetação que ajudava a controlar o ciclo da água, aumentamos nossa vulnerabilidade.
Por isso, discutir eventos climáticos extremos também significa discutir escolhas humanas.
7. A Amazônia e os recursos naturais entram nessa equação?

Sim, mas novamente é preciso evitar simplificações.
Florestas participam do ciclo da água, armazenam carbono, influenciam o clima regional e prestam diversos serviços ecossistêmicos.
Quando uma sociedade altera profundamente esses sistemas, pode modificar condições ambientais que levaram milhares ou milhões de anos para se desenvolver.
Isso não significa que cada seca ou enchente seja causada pelo desmatamento.

Significa que a transformação dos ecossistemas pode alterar a vulnerabilidade e a capacidade de adaptação de determinadas regiões.
O princípio crítico aqui é simples: quanto mais dependemos de sistemas naturais, maior é o custo de destruí-los sem compreender suas funções.
8. E os terremotos? Eles também são consequência da crise climática?
Aqui está um ponto fundamental para não misturar fenômenos diferentes.
Terremotos são, em sua maioria, resultado de processos geológicos associados ao movimento das placas tectônicas.

O USGS afirma que não há evidência de aumento global sustentado da atividade sísmica natural. O crescimento do número de terremotos detectados nos registros recentes está relacionado, em grande parte, à expansão dos instrumentos de monitoramento e à capacidade tecnológica de registrar tremores menores.
Isso significa que não devemos colocar terremotos e aquecimento global no mesmo pacote.

Existem pesquisas sobre formas específicas de atividade humana capazes de induzir sismicidade local, mas isso é diferente de afirmar que a mudança climática esteja provocando uma escalada global de terremotos.
Pensar criticamente também significa saber dizer “não há evidência suficiente para afirmar isso”.
9. Estamos vivendo uma sequência anormal de extremos?
Os dados indicam que o problema merece atenção.
A Organização Meteorológica Mundial afirma que os 11 anos entre 2015 e 2025 foram os mais quentes já registrados e que eventos extremos vêm provocando impactos humanos e econômicos significativos.
No Brasil, o Cemaden também identificou aumento da frequência de ondas de calor nas últimas décadas. Segundo nota técnica publicada em 2026, esses eventos se intensificaram em todos os estados brasileiros desde o início dos anos 2000 e tendem a ser agravados em anos de El Niño.
Portanto, há fundamento científico para levar a sério a influência do aquecimento global sobre determinados extremos climáticos.
Mas isso não significa abandonar a análise individual de cada evento.
A ciência não precisa escolher entre “tudo é natural” e “tudo é causado pelo homem”.
A realidade é muito mais complexa.
10. A pergunta mais importante talvez seja outra
Talvez a questão central não seja simplesmente descobrir se “o homem causou” determinado desastre.
A pergunta mais importante é:
Estamos aumentando os riscos ao modificar o ambiente sem compreender plenamente as consequências?
Quando desmatamos, urbanizamos áreas vulneráveis, alteramos rios, aumentamos a concentração de gases de efeito estufa e consumimos recursos naturais em velocidade superior à capacidade de regeneração de determinados ecossistemas, estamos interferindo nos sistemas que sustentam nossa própria sociedade.
Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que nem toda intervenção humana produz necessariamente consequências negativas e que desenvolvimento econômico, infraestrutura e tecnologia também podem aumentar nossa capacidade de adaptação.
O desafio está em encontrar equilíbrio.
Conclusão: natureza, ciência e responsabilidade
Os eventos climáticos extremos que observamos atualmente não podem ser explicados por uma única causa.
El Niño é um fenômeno natural. Terremotos são predominantemente geológicos. Tempestades e secas fazem parte da dinâmica do planeta.
Mas o aquecimento global provocado pelas atividades humanas está alterando as condições climáticas de fundo. Os dados internacionais e brasileiros apontam para um planeta mais quente, com impactos relevantes sobre ondas de calor, chuvas intensas, secas, oceanos e outros componentes do sistema climático.
A grande lição, portanto, não deveria ser o medo.
Deveria ser a responsabilidade.
A natureza não precisa ser tratada como inimiga da humanidade. Tampouco deve ser vista como um recurso infinito colocado à nossa disposição.
Precisamos aprender a distinguir o que é fenômeno natural, o que é consequência da ação humana, o que é resultado da interação entre os dois e, principalmente, aquilo que ainda não conseguimos explicar com segurança.
Essa postura exige ciência, humildade e pensamento crítico.
Porque talvez a questão mais importante diante dos eventos climáticos extremos não seja perguntar se a Terra está “se vingando” da humanidade.
É perguntar se a humanidade está finalmente percebendo que faz parte do sistema que está alterando.
E, se percebeu, o que pretende fazer a partir de agora.

