4 Candidatos e 1 Direito Social: o que Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado e Zema prometem para o Trabalho?

O art. 6º da Constituição Federal inclui o Trabalho entre os direitos sociais fundamentais. Mas, em 2026, discutir esse direito significa ir muito além da simples criação de vagas. O Brasil enfrenta desafios relacionados ao desemprego, à informalidade, aos baixos salários, à transformação tecnológica, ao crescimento das plataformas digitais e ao impacto da inteligência artificial sobre inúmeras profissões.
A pergunta que interessa ao eleitor, portanto, não é apenas qual candidato promete gerar mais empregos. É preciso observar como cada proposta pretende preparar a população para uma economia em transformação e quais instrumentos serão utilizados para garantir renda, qualificação e oportunidades.
Nesta análise, o Direito com Propósito compara os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Os quatro reconhecem a importância da geração de oportunidades, mas apresentam caminhos bastante diferentes para enfrentar os desafios do Trabalho no Brasil.

1. Um direito constitucional em transformação
A Constituição de 1988 construiu uma ampla rede de proteção social e colocou o Trabalho entre os direitos indispensáveis à dignidade humana. Essa escolha constitucional está relacionada também a outros princípios, como a valorização do trabalho humano, a livre iniciativa e a busca pelo pleno emprego.
O problema é que o mercado mudou.
A expansão dos aplicativos criou novas formas de ocupação. A inteligência artificial começa a modificar profissões tradicionais. A automação substitui determinadas tarefas e cria outras. O empreendedorismo tornou-se alternativa para milhões de brasileiros, mas muitas vezes surge não como escolha, e sim como resposta à falta de emprego formal.
Ao mesmo tempo, jovens enfrentam dificuldades para conquistar a primeira oportunidade profissional, pessoas com deficiência ainda encontram barreiras de acessibilidade e inclusão, e as mulheres continuam enfrentando obstáculos relacionados à desigualdade de oportunidades e à responsabilidade desproporcional pelo cuidado da família.
É nesse cenário que os planos dos quatro candidatos precisam ser analisados.

2. Lula: valorização salarial, emprego formal e proteção na economia digital
O programa de governo de Lula apresenta uma visão centrada na valorização do Trabalho, na expansão da proteção social e no fortalecimento do emprego formal.
Entre os compromissos está a continuidade da política de valorização real do salário mínimo. O plano relaciona o aumento do poder de compra à redução da pobreza, à distribuição de renda e ao desenvolvimento econômico.
A proposta também prevê o fortalecimento do Sistema Público de Emprego, Trabalho e Renda, com integração das políticas de qualificação profissional às necessidades do desenvolvimento econômico e às novas competências exigidas pelo setor produtivo.
Um dos pontos mais modernos do programa é a previsão de expansão de uma Plataforma Pública Nacional de Empregabilidade com inteligência artificial, integrada à rede do SINE. A ideia é conectar vagas, cursos, certificações e serviços de orientação profissional.
O documento também trata diretamente da economia de plataformas. A proposta prevê regras específicas para trabalhadores de aplicativos e serviços digitais, incluindo discussão sobre remuneração, condições de atividade, direitos laborais e previdenciários e transparência dos algoritmos. Além disso, o plano defende o combate à chamada pejotização fraudulenta e o fortalecimento da fiscalização.
A lógica central é clara: crescimento econômico deve ser acompanhado por proteção social e melhoria das condições de renda.

3. Flávio Bolsonaro: qualificação, produtividade e conexão com o setor produtivo
O plano de Flávio Bolsonaro apresenta uma abordagem mais orientada para resultados, produtividade, formação profissional e aproximação entre educação e atividade econômica.
Na área educacional, o programa prevê ampliação da formação técnica em parceria com o setor produtivo. Também inclui maior presença de tecnologia nas escolas, com robótica, computadores, conectividade e desenvolvimento de competências relacionadas à economia digital e à inteligência artificial.
Essa estratégia pode ter impacto direto sobre o Trabalho, especialmente para jovens que precisam entrar em um mercado cada vez mais dependente de competências tecnológicas.
A proposta parte da ideia de que melhorar a aprendizagem, aumentar a qualificação e aproximar a formação das necessidades das empresas pode ampliar as oportunidades de emprego e empreendedorismo.
O desafio, porém, será demonstrar como essa conexão entre educação e setor produtivo será estruturada nacionalmente e como serão atendidos os trabalhadores que já estão fora da escola e precisam de requalificação.
Para o eleitor, a questão central é observar se a estratégia baseada em produtividade, qualificação e expansão da atividade econômica será acompanhada por mecanismos suficientes de inclusão para trabalhadores vulneráveis.

4. Ronaldo Caiado: reindustrialização e preparação para a economia do futuro
O programa de Ronaldo Caiado apresenta uma das abordagens mais detalhadas sobre a relação entre desenvolvimento industrial, tecnologia e qualificação profissional.
A proposta identifica setores estratégicos para a reindustrialização brasileira, incluindo computação, conectividade, inteligência produtiva, bioeconomia, defesa, indústria de baixo carbono, manufatura avançada e automação.
O plano também prevê a criação de políticas voltadas à digitalização da indústria, à expansão do uso da inteligência artificial e ao apoio às pequenas e médias empresas. Entre as propostas estão crédito e incentivos para aquisição de tecnologias, capacitação de empresários e trabalhadores e parceria com instituições como SENAI, EMBRAPII, universidades e institutos tecnológicos.
Outro eixo é a formação técnica. O programa propõe expansão do ensino profissional, atualização curricular para áreas como inteligência artificial, automação, análise de dados, cibersegurança e tecnologias industriais, além de um programa nacional de requalificação profissional.
Caiado também reconhece obstáculos específicos enfrentados por jovens, mães, pessoas com deficiência e pequenos empreendedores. Seu plano propõe integrar qualificação, aprendizagem, emprego, empreendedorismo e políticas de cuidado, buscando criar uma transição mais eficiente entre proteção social e geração de renda.
A aposta está na ideia de que o Trabalho do futuro dependerá da capacidade do Brasil de combinar crescimento econômico, inovação e formação profissional.

5. Romeu Zema: empreendedorismo, simplificação e geração de oportunidades
O plano de Romeu Zema coloca o empreendedorismo, a atração de investimentos, a simplificação burocrática e a eficiência econômica entre os principais instrumentos para ampliar oportunidades.
A lógica da proposta é que um ambiente econômico mais favorável à atividade empresarial pode estimular investimentos e, consequentemente, aumentar a geração de emprego e renda.
Na área de qualificação, o programa também prevê formação técnica e profissional em parceria com o Sistema S, instituições de ensino e iniciativa privada, incluindo competências digitais, inovação e empreendedorismo.
Zema também relaciona políticas sociais à inserção produtiva. O plano propõe aproximar programas de moradia, assistência e qualificação do ingresso no mercado, especialmente para populações vulneráveis.
A diferença em relação ao programa de Lula aparece principalmente na visão sobre o papel do Estado. Enquanto Lula enfatiza proteção trabalhista e políticas públicas de emprego, Zema concentra maior atenção na criação de condições econômicas para que empresas e empreendedores gerem oportunidades.
O debate, portanto, não é simplesmente entre ser a favor ou contra o trabalhador. Trata-se de discutir qual modelo econômico e institucional pode produzir mais oportunidades com sustentabilidade.

6. Informalidade, aplicativos e novos modelos de ocupação
Um dos maiores desafios para qualquer governo será lidar com a transformação do mercado.
Motoristas e entregadores por aplicativos, profissionais autônomos, trabalhadores remotos, produtores de conteúdo e prestadores de serviços digitais representam uma realidade que não se encaixa perfeitamente nos modelos tradicionais.
Nesse ponto, Lula apresenta uma proposta mais explícita de regulamentação e proteção dos trabalhadores de plataformas. Caiado enfatiza a adaptação produtiva à inteligência artificial e à automação. Flávio Bolsonaro aposta na qualificação tecnológica e na conexão com o setor produtivo. Zema prioriza empreendedorismo, competitividade e redução de barreiras à atividade econômica.
A grande pergunta é como proteger direitos sem impedir a inovação.
Esse será um dos debates mais importantes dos próximos anos.
7. Jovens, mulheres e pessoas com deficiência
O direito ao Trabalho não produz os mesmos resultados para todos.
Jovens frequentemente enfrentam a exigência paradoxal da experiência profissional para conquistar a primeira oportunidade. Mulheres ainda enfrentam desigualdades relacionadas à remuneração, à progressão profissional e à responsabilidade pelo cuidado de filhos e familiares.
As pessoas com deficiência continuam encontrando barreiras físicas, tecnológicas e culturais.
O programa de Caiado reconhece expressamente esses obstáculos e propõe trilhas de inclusão produtiva, qualificação, aprendizagem e apoio à transição para a autonomia econômica.
Já os demais programas abordam esses desafios de forma integrada às políticas de educação, qualificação, empreendedorismo e desenvolvimento social.
A comparação revela um ponto importante: criar vagas não é suficiente se determinados grupos continuarem enfrentando barreiras para acessá-las.
8. Automação e inteligência artificial: ameaça ou oportunidade?
A inteligência artificial provavelmente será uma das maiores forças de transformação econômica da próxima década.
Algumas ocupações podem desaparecer. Outras serão profundamente modificadas. Ao mesmo tempo, novas profissões surgirão.
Por isso, o Trabalho precisará ser acompanhado por políticas permanentes de qualificação e requalificação.
Nesse aspecto, os quatro programas reconhecem, em diferentes graus, a importância da tecnologia. Lula propõe uma plataforma pública de empregabilidade com IA e proteção para trabalhadores da economia digital. Flávio Bolsonaro defende maior presença da tecnologia e da inteligência artificial na formação educacional. Caiado apresenta uma estratégia abrangente de digitalização industrial e requalificação. Zema enfatiza competências digitais e aproximação entre formação e atividade econômica.
A divergência está na intensidade e nos instrumentos utilizados.
9. O que o eleitor deve comparar?
Ao analisar as propostas, o eleitor pode fazer algumas perguntas simples.
Como o candidato pretende gerar empregos?
Qual será a política para trabalhadores informais?
Como os jovens serão preparados para conquistar a primeira oportunidade?
Existem propostas concretas para qualificação profissional?
Como serão tratados os trabalhadores por aplicativos?
Qual é a estratégia para enfrentar os efeitos da automação?
Como mulheres e pessoas com deficiência serão incluídas?
Qual será a política para salários e renda?
E, principalmente: quanto custará cada proposta e como ela será executada?
O Trabalho é um direito constitucional, mas sua concretização depende de políticas econômicas, educacionais, tecnológicas e sociais que precisam funcionar de maneira integrada.
10. Mais do que empregos: qual futuro o Brasil quer construir?
A comparação entre os quatro planos mostra diferentes visões sobre o futuro do país.
Lula aposta em valorização salarial, emprego formal, proteção social e regulamentação da economia digital. Flávio Bolsonaro enfatiza qualificação, produtividade, tecnologia e aproximação entre educação e setor produtivo. Caiado apresenta uma estratégia baseada em reindustrialização, inovação, inteligência artificial e requalificação profissional. Zema prioriza empreendedorismo, eficiência, simplificação e atração de investimentos.
Nenhuma dessas escolhas é neutra.
Cada modelo define um papel diferente para o Estado, para as empresas e para os trabalhadores.
Por isso, antes de decidir o voto, vale olhar além dos slogans. O eleitor deve comparar as propostas, verificar se existem metas concretas e acompanhar, depois da eleição, se as promessas serão transformadas em políticas públicas.
A Constituição garante direitos. Os candidatos apresentam caminhos diferentes para concretizá-los.
Conhecer esses caminhos é parte essencial da cidadania.

